Reflexões sobre viver a dois

Viver com um companheiro é uma grande mudança de vida. É um salto difícil, e quando chegamos ao outro lado as coisas não são mais fáceis, não há felicidade instantânea como nossos sonhos mais românticos nos levam a acreditar.

Nos enganamos ao acreditar que a vida juntos, todos os dias, será somente um extensão do relacionamento que há hoje, quando na realidade, é uma fase muito diferente. Como não cometer esta falha de julgamento e, ultrapassar alguns dos obstáculos dessa trilha é o tema desta reflexão, que é guiada unicamente pelas experiências pessoais deste que vos escreve.

O salto

O Salto

Foto de Lane Smith no Unsplash

Tudo parece estar em seus lugares, o relacionamento vai bem, há amizade, felicidade. O caminho lhe parece claro, ainda que exista a normal apreensão e ansiedade, a vida juntos é o destino final.

Chega o grande dia, o salto é dado. As primeiras semanas são até mesmo mais do que o sonhado. No entanto, devagar, quase sem se notar, surgem incômodos, pequenos, furtivas, esgueiram-se por curtos momentos do cotidiano e, de surpresa, tudo culmina em conflito. Estes conflitos são marcados por sensação que pode ser descrita com a frase “nós não éramos assim”.

Estas pequenos incômodos são causados por opiniões e decisões do outro, conversas não tão intensas como antes, comportamentos e outros motivos. A conexão destes itens é o fato de possuírem uma aura de surpresa: mesmo após um bom tempo juntos, há faces desconhecidas no outro.

Em minha vivência, isto ocorre devido à divergências em 3 aspectos de cada um de nós que, antes da convivência diária, não são facilmente visíveis em sua totalidade. Defino-os como: valores, interesses e desejos.

Diagrama de Venn - Desejos, Interesses, Valores

Desejos, interesses, e valores – interconectados

Represento estes 3 aspectos em um Diagrama de Venn, pois eles conectam-se e influenciam uns aos outros. Para tornar estes conceitos mais próximos do que penso sobre eles, descreve-os brevemente da seguinte forma:

  • Valores: são características de caráter, virtudes e atitudes valiosas para si que guiam nosso comportamento (exemplo: nômade, erudição).
  • Interesses: tudo que lhe desperta interesse, e te leve a conhecer mais, experimentar mais, viver mais daquele tópico (exemplo: viajar, filosofia, tecnologia).
  • Desejos: coisas ou experiências desejadas, sendo das 3 características as mais fáceis de serem identificadas mas nem sempre verbalizadas (exemplo: viajar para o exterior, aprender sobre estoicismo, adquirir novo computador)

Com alguma reflexão é possível visualizar como estes itens se influenciam. Utilizando-me dos exemplos anteriores, podemos visualizar como o valor erudição está de acordo com o interesse em filosofia e o desejo de aprender sobre estoicismo. Há sinergia entre estes itens 3 itens e, no diagrama, eles estariam na intersecção entre os 3 aspectos, representando fortes características de uma pessoa, presentes em seu cotidiano.

Existirão também itens que não possuem conexão aparente: são items que representam  faces desconhecidas de si, quem deve ser exploradas. Estes itens são as partes de nós que temos dificuldade de expressar, fazem parte de quem somos mas não temos consciência disso. Acredito fortemente que a jornada do auto conhecimento é desvendar e unir todos estes aspectos em uma única esfera, é o processo de individuação, o caminho para nos tornarmos cada vez mais um indivíduo único, íntegro.

Retornando ao relacionamentos, como isto afeta nossas vidas íntimas? Ao adicionar uma segunda pessoa ao diagrama anterior, ambas nesta jornada do auto conhecimento, teremos o cenário abaixo.

Interesses, valores e desejos de dois seres

Interesses, valores e desejos de dois seres

Observando desta forma, notamos que as intersecções são consideravelmente menores, e é nisto que está o perigo para jovens relacionamentos. Quando não divide-se o mesmo teto, na maior parte das vezes o casal envolve-se em atividades interessantes ou ao menos aceitáveis para ambos quando encontram-se, vivendo nas intersecções. Conforme o relacionamento progride, nos deparemos com alguns destes aspectos afastados das intersecções identificando diferenças, mas é somente quando vivem juntos todos os dias que as diferenças aparecem em sua totalidade.

Isto é ruim? Não. É somente nesta situação que ambos conseguem conhecer-se totalmente, nós somos diferentes e isto é parte do que nos faz humanos. Mas passar por essa fase da surpresa não é fácil: todos conhecemos algum casal que separou-se pouco após fazer o salto, ainda que antes fossem perfeitamente felizes.

Há ainda um agravante. Estes aspectos não são imutáveis: na realidade, é bastante comum que alterem-se no decorrer da vida (decidir seguir uma nova carreira, um novo esporte e outros).

Para reduzir surpresas nossa intenção deve ser então descobrir o que há na fronteira da psique do outro. Na verdade, não apenas descobrir, mas também aceitar e apoiá-lo à ser cada vez melhor – a recíproca é verdadeira. Para isto, entendo que devemos ter duas aproximações, dependendo da fase em que encontra-se.

Antes do salto

O casal está na fase de menor atrito, onde geralmente opta-se por atividades que estão de acordo com os interesse comuns. No entanto, é muito importante que essa fase seja utilizada para conhecer seu parceiro o máximo, o que irá reduzir surpresas mais tarde. A intenção é começar a desconstruir quaisquer ‘personagens’ que tenhamos criado do outro em nosso psicológico.

A dificuldade é que nem sempre somos capazes de expressar quem realmente somos, expressar a totalidade de nossos desejos, interesses e valores. Também não é fácil formular perguntas e respostas adequadas para este tipo de tema, que é tão intrínseco: a melhor maneira de conhecer é no convívio.

Então como conhecer melhor seu companheiro? Conhecendo melhor o ambiente que ele cria para si, a realidade do outro, a vida construída para si – através do ponto de vista de outras pessoas. Vejo 3 veículos possíveis para adquirir este conhecimento:

  • Círculo de amigos próximos
  • Familiares
  • Pessoas do convívio diário (companheiros de trabalho e prestadores de serviço, por exemplo)

Não estou sugerindo uma investigação, e sim atenção quando estiver junto destas pessoas. Fazer perguntas sobre como estas pessoas vêem seu parceiro é completamente normal, e isso faz parte do processo de adquirir intimidade. Através do círculo de amigos, por exemplo, você poderá ver comportamentos e opiniões antes desconhecidas. É um exercício valioso e, ainda, muito saudável se a intenção é levar o relacionamento para um próximo passo.

Siga em frente dialogando. Converse sobre cada uma de suas descobertas com seu parceiro, compreenda, aprenda. Como resultado, um conhecimento muito mais profundo surgirá.

Após o salto

Nesta fase, as diferenças virão a tona diariamente. Quanto mais do cotidiano é vivenciado juntos, mais ‘detalhes’ do outro descobrimos e, geralmente, não sabemos lidar com isto. Em casos extremos, podemos nos sentir até mesmo enganados, pois é normal que tenhamos em nosso psicológico determinadas convicções sobre os outro, e quando elas caem por terra há um choque, uma surpresa, a sensação de que, talvez, não saibamos quem é a pessoa com quem nos comprometemos. O que deve-se lembrar aqui é que isto é completamente normal, viver junto é conhecer o outro diariamente. Gosto de pensar também que, se conhecêssemos o outro em sua totalidade e se ele nunca mudasse, porque então estaríamos juntos? Todos os aspectos onde há discordância e concordância permaneceriam os mesmos até o fim da vida, isto é acreditar que uma pessoa possui início e fim o que considero um grande engano.

Como humanos, nós estamos sempre aprendendo, criando e mudando – acredito que todos concordamos com isto. Uma reflexão rápida entre quem éramos à 3 anos atrás é capaz de mostrar o abismo que há entre seu eu antigo, e o atual. A grande realidade, é que estas mudanças acontecem praticamente todos os dias, de maneira tão pequena que não somos capazes de perceber. Se você concorda com esta visão, pode também concordar que, em um relacionamento duradouro, todas as evoluções deverão ser vividas juntos, que o outro vai mudar, que isto é bom, e que precisamos apenas saber como lidar com isto. De preferência, evoluir, crescer – juntos.

É necessário entender também que, se nesta caminhada os conjuntos de valores, interesses e desejos destacar-se do seu, não havendo nada em intersecção com os do outro, não será mais possível que ambos vivam juntos. Há também o caso do surgimento de valores de extremos opostos. Estes tópicos devem ser foco de diálogo e exercício, pois enquanto existirem, haverão fortes conflitos. Se não houver solução, mesmo que não haja afastamento do casal, uma vida sem stress será improvável.

Como então conviver com isto, o que fazer? Infelizmente, não há fórmula mágica para a felicidade. O que é necessário, na opinião do que vos escreve, é uma grande dose de resiliência, compreensão, respeito, e diálogo. Deve-se aprender a ser forte e vulnerável, aceitar que o outro é falho, compreendê-lo e, sobre este alicerce, construir com ambas as vidas. Errar, conflitar, entender e construir.

Não acredite que dois podem tornar-se um – isto jamais acontecerá – mas, acredite, dois constroem uma vida muito melhor que um, pois cada ponto de vista irá se ater à diferentes detalhes, com um resultado muito superior. A chave é a diferença. Valorize-a.

Existem, é claro, ferramentas que podem auxiliar na solução destes conflitos e estas devem ser selecionadas tomando como critério o que funciona melhor para cada um. Como sugestão, eu deixarei aqui uma ferramentas que considero interessantes mas, novamente, pesquise e utilize o que funcionar melhor.

Mergulhando na intimidade

Mergulho

Foto de Nathan Ziemanski no Unsplash

Para ampliar o auto-conhecimento e conhecimento mútua sugiro uma atividade para explicitar os interesses, valores e desejos. A atividade é uma reflexão focada-se nos 3 aspectos sobre os quais conversamos: valores, interesses, e desejos.

Antes de iniciar, selecione uma forma de registro conveniente e que permita reorganização. Exemplos são um bloco de papel pequeno, cartões, ou post-its, mas é possível utilizar qualquer ferramenta.

Feito isto, reflita e escreva cada item que vier à sua mente, preferencialmente de forma isolada (cada item em um cartão, por exemplo). Lembre-se também de indicar em cada item se ele é um valore, interesse, ou desejo. Se necessário, leia novamente a descrição que escrevemos nas seções anteriores.

Após escritos, junte os seus itens com os de seu par, organize-os em um local visível para ambos e leia-os. Neste momento, a intenção é o entendimento de todos os itens. Para cada item, garanta: o entendimento seu significado, reflita se você aceita aquele item.  Faça dialogue o quanto for necessário para chegar a este entendimento.

É comum que surjam muitos pontos de contato, itens similares escritos por ambos – as intersecções. Há também as boas diferenças: os itens citados por apenas um dos lados e que ambos podem concordar sem atrito.

No entanto, não se engane, aparecerão pontos de conflito, itens opostos ao que você acredita – estes são o verdadeiro objectivo deste exercício. Converse, entenda e alcance um consenso sobre o item. Para exemplificar, considere que um dos desejos de seu par seja “Morar em São Paulo”. Como isto te afeta? Morar em São Paulo é viável para você? É possível criar um plano para tornar este desejo realidade? Todos estes conflitos devem ser resolvidos com o mais alto respeito e honestidade.

Há a possibilidade de não haver consenso. Nestes casos, a honestidade deve prevalecer. Sejam claros sobre como sentem-se sobre esta divergência. Recomendo seguir a regra das 24h: aguardem ao menos um dia, e retomem a conversa. Nesta segunda conversa, decidam o futuro do relacionamento, livres de possíveis impulsividades.

Ao fim deste exercício, ao chegar em um consenso em todos os itens (torço fortemente para que isto ocorra), ambos conhecerão à si e ao outro melhor. É um excelente momento para conversar sobre como ajudar-se à perseguir seus interesses, seguir seus valores, e realizar seus desejos.

Antes que você vá…

Torço para que esta pequena reflexão e conhecimento, que obtive durante minha caminhada possa ser de ajuda. Lembre-se sempre que um par deve ser uma equipe, devem jogar juntos, realizar mais e melhor, unindo suas diferenças.

Muitas vezes, devido à pressa do nosso cotidiano, deixamos de dar a atenção devida à quem está próximo de nós, conhece-lo melhor. O exercício proposto tem o potencial para exibir aspectos do outro não conhecidos anteriormente, assim como derrubar as deduções, as imagens que construímos somente em nossas mentes. Com este conhecimento, e sentimento de aceitação mútuo, mergulhe nestes pontos, viva mais uma vez a fase de descoberta dos primeiros dias. Garanto que isto vai mudar sua vida, e para melhor.

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